O Jardim do Amor
Eu fui ao Jardim do Amor,
E vi algo jamais avistado:
No centro havia uma Capela,
Onde eu brincava no relvado.
Tinha os portões fechados, e "Proibido"
Era a legenda sobre a porta escrita.
Voltei-me então para o Jardim do Amor,
Que outrora dera tanta flor bonita,
E vi que estava cheio de sepulcros,
E muitas lápides em vez de flores;
E em negras vestes hediondas os Padres faziam rondas,
E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.
Dividido por incessante angústia,
Pois a Piedade a alma dilacera,
Padeceu dores, por séculos infindos.
Por rochedos escorriam cascatas de vida.
Em Nervos a linfa contraiu o vácuo
E os nervos erravam no seio da noite,
E deixaram um globo, esférico de sangue
Suspenso, a estremecer no vácuo.
Assim foi o Eterno Profeta dividido
Perante a mortal imagem de Urizen;
E em trevas e mutáveis nuvens,
Por baixo, em noite de invernia,
Estendia-se imenso o abismo de Los;
E nos intervalos da treva, surgiram
Aos olhos dos Eternos as visões distantes,
Remotas, do sombrio afastamento.
Lentes que desvendam novos Mundos
No Abismo infinito e sideral,
Os olhos flexíveis dos Imortais
Miravam as visões sombrias de Los
E o globo de vivo sangue a estremecer.
William Blake
